«Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa, se, em vez de poeta, tivesse sido pintor?»

« De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas ou esculpidas, acabaram por tornar invisível Luíz Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros (…) De Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta é pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, como que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, no direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê ? O braço levanta-se enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.»

José Saramago

in Anónimo Invisível – Uma interpretação Gráfica de Fernando Pessoa, de Hermenegilfo Sábat

Uma pérola que me veio parar às maõs esta tarde. A tarde em que finalmente conheci a magnífica casa do poeta. Poeta Pessoa que, se fosse vivo, celebraria na próxima sexta-feira 120 anos.  

~ por Filipa Queiroz em Junho 11, 2008.

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