A brava estranha em nós

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Não me surpreendeu por que se trata de Jodie Foster, mas a qualidade deste blockbuster arrebatou o meu maior aplauso. The Brave One título que, coisa bizarra, consegue ser pior do que o português ‘Estranha em mim‘ – foi dos poucos ‘lusomundos’ que mais recentemente me pregou à cadeira do cinema.

O enredo está muito bem esgalhado. Na história vivemos alguns meses, diria aproximadamente meio ano, da vida de Erica Bain. E como todo o bom argumento tem um enredo perspicaz, neste caso de grande qualidade, este não deixa de possuir uma série de detalhes e ironias (umas mais, outras menos) subliminares. Jornalista, autora do programa ‘Batendo as Ruas’ numa rádio local, Erica divide a vida entre dois amores: Nova Iorque e o noivo, David. Um dia, a arbitrariedade do destino e um encontro com a pior escória humana rouba-lhe ambos, provocando três mortes. A dele, a dela, e a da cidade para ela.

O sentimento que o filme vai despertando ao passar dos minutos é: ‘E se fosse eu?E se fosse aqui?E se fossemos nós?’. Afinal a vida pode ser tão maravilhosa quando se ama o que se faz e se faz o que se ama, quando se calca o chão que se deseja e só apetece rebolar de felicidade por que o mundo pode ser um lugar bonito para se viver. O mundo. Nova Iorque. O mundo. O realizador, Neil Jordan, retrata uma Big Apple opaca e contraída, a atmosfera política e social do pós-9/11 que roubou o romantismo da cidade mítica do (meu) imaginário ‘alleniano’ e a entregou aos demónios que hoje a coabitam. A violência. A gratuitidade da vida humana que nos leva a questionar a nossa própria moral e a descobrir os estranhos em nós.

Podia ser uma vulgar filme de acção e suspense, com meia dúzia de tiros, um romance, um herói (neste caso heroína) e um good cop. Mas não. Tem falhas, por que as tem (como alguns truques CSI que só não funcionam quando não é preciso, e uma ou outra cena mais previsível) mas mesmo isso é funcional. E além disso, passo o sexismo, mas porra, já era hora de termos uma mulher a assumir os comandos de uma película do género. Essa ideia é mesmo explorada ao longo do filme, sobretudo no discurso dos polícias (a única pessoa de quem não desconfiam é da mulher) e o facto do próprio polícia não acreditar no sistema e assentar os pés na estranha linha ténue que separa o right from wrong. Bernard Herrmanm dá a Erica a banda sonora perfeita para a sua errância vigilante que, por momentos, até nos fazem regressar à pequena grande Iris de um Taxi Driver longínquo. Uma Jodie forte, decidida mas perdida.

Sarah McLachlan canta:

«If it takes my whole life, I won’t break, I won’t bend. It will all be worth it. Worth it in the end.»

Será?

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

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