Da melancolia

Enquanto fazia a minha ronda habitual pela blogosfera deparei-me com esta interessante referência de Pedro Mexia à obra de Sigmund Freud Rauer und Melancholie, de 1916. Já lhe tinha passado os olhos numa livraria e de repente dei-me conta de que posso estar de luto. Se sim, socorra-me o optimismo de Freud e as palavras do autor de Nada de Melancolia (2007), livro que aliás me pisca o olho da estante preguiçosa desde o Natal (e sim, foi um daqueles presentes com segunda intenção, uma espécie de vingançazinha com laçarote). Acho até que é hoje que lhe vou folhear umas páginas e até  já tenho a banda sonora perfeita: Melancolie and the infinite sadness dos extintos e saudosos Smashing Pumpkins.

E nisto relembro o texto que há tempos encontrei na web de outro grande senhor da literatura portuguesa:

« A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança. Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos.
Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia.
Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação. »

em Coração, Cabeça e Estômago de Camilo Castelo Branco

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

2 comments

  1. Extintos? Não estarás a ser purista, não? 🙂

  2. vá, vá, para bom entendedor…;)

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