O dia em que me encontrei com David Cronenberg

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«Technology doesn’t alter the fact that you have to tell a story»

David Cronenberg, criador de filmes tão perturbadores como “A Mosca” (1986) e “Crash” (1976), brilhou. Uma personalidade afável, com um apurado sentido de humor, que se esconde por trás do realizador célebre pelos seus filmes tabu, recheadinhos de sexo, violência e fetiches. Grande parte do que é humano, portanto. Durante a conversa com o público no Centro de Congressos do Estoril, o realizador falou sobre o cinema em geral, sobre os seus filmes em particular. O ‘gadject freak’ assumido falou da forma como a tecnologia e o acesso aos filmes tem mudado (aliás foi confrontado com a expressão que usou numa entrevista a uma revista estrangeira que dizia “Cinema is dead”), mas sublinhou que fazer filmes não mudou. Comparou esta nossa época com a da chegada da televisão, do vídeo.cronemberg2 E confessou que só não usa o digital por preguiça.

«Oh, I have an Iphone right here, and I’m ready to use it and make the next feature right now with it. And than tomorrow I’ll put it on Youtube »

Antes do encontro, que assinalou a retrospectiva dos filmes do realizador canadiano e o prémio carreira que recebeu do Estoril Film Festival, assistimos ao louco “Italian Machine”. Mais uma vez a relação entre o homem e a máquina, a carne e o metal, as diferentes formas de paixão, de arte, de desejo.

«I do movies to explore human condition»

E é provável que nenhum dos seus filmes o faça tão bem como “Crash”, ao qual pudemos assistir depois da conversa, para sair daquela sala com aquela mistura de êxtase, excitação, repulsa e apoteose mental. Mas antes, o senhor de olho azul ainda contou como foi difícil trabalhar com Jeremy Irons (“M. Butterfly”, 1993), a aventura que foi encontrar quem protagonizasse “A Mosca” até Jeff Goldblum dizer “talvez”, ou como cortar os ordenados do pessoal, inclusive o dele próprio, foi a solução para fazer “Spider”. De resto, ficou prometido o regresso de Viggo Mortensen como a personagem Nikolai num “Promessas Perigosas II“. A primeira sequela que se arrisca a fazer, com o actor que já se tornou o seu mais recente fetiche. E ele explicou porquê: o facto de ele falar várias línguas, ter uma sensibilidade fora de série e ser tão boa pessoa como bom actor.

«There’s nothing more organical than Viggo Mortensen’s body»

Nós concordamos. E antes de ficarmos no escurinho, Crononberg faz a ressalva:

“It’s not Paul Haggi’s “Crash” you’re about to see. This one didn´t win an Oscar. So, those who came by mistake, I’m sorry. You can leave now”

E a plateia explodiu numa gargalhada. E a bobine começou a girar.

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

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