Guanghzou (Cantão)

Dezenas, centenas, milhares de pessoas a zaraquitar de um lado para o outro da estacão ferroviária. Foi esta a primeira imagem à chegada a Guanghzou, directamente de Zhuhai, cidade chinesa que faz fronteira com Macau, duas horas depois da partida.

A visão não foi a mais hospitaleira. Gente que circula ou se mantém sentada e deitada pelo chão da estação, desprovida de qualquer tipo de banco ou encosto. Todos com ar de quem desespera mais do que espera pelo comboio da vida que se atrasou nalguma paragem longínqua. Um bloco de soldados faz a ronda com braçadeiras vermelhas no braço. Primeira paragem: KFC. Não valia a pena arriscar logo à partida.

A noite acontece no Soho lá do sítio. À porta do Coco Club, uma entre as muitas discotecas plantadas à beira-Rio das Pérolas, teenagers altamente produzidas, para ser suave nos termos. Dentro, o kitsch do kitsch. Cortinas de pelúcia, candeeiros com plumas rosa choque. Jogos de bebida, a oferta musical duvidosa do costume mas com mistura mais elaborada. Os rapazes, completos fashion victims, embalam o próprio estilo para aterrar na pista a exibir os dotes no breakdance.

O Memorial Garden to the Martyrs foi o eleito para uma primeira visita diurna. Amplo e tranquilo, é local de ócio para a população mais idosa e famílias com crianças. Jovens lêem e conversam discretos debaixo dos coretos com telhados em bico, enquanto os mais idosos praticam o seu tai-chi sem se importarem com os cliques das máquinas fotográficas dos turistas. Também há quem receba ensinamentos de artes marciais. Miúdos e graúdos – um cheirinho neste pequeno vídeo e neste.

Não muito longe do Memorial fica o Peasant Movement Institute, interessante museu sobre a História da China revolucionária, construído num antigo centro de treinos do Exército Vermelho, fundada no princípio do século XX por Mao Tse-tung.

Pelas ruas, o compasso da novidade constante. Os cheiros doces que se colam à pele e o dedo que não descola da máquina fotográfica. Caras sorridentes mesmo quando não sorriem, roupa estendida por toda a parte de todas a formas possíveis e imaginárias.

Homens e mulheres carregam as suas mercadorias, a pé ou de bicicleta. Outros aproveitm uns minutos de folga para pôr o apetite em dia. Das formas mais peculiares.

Num outro lado da cidade, a movimentada Beijing Street é o reflexo da modernidade e globalização. Marcas, imitações de marcas, lojas, imitações de lojas, anúncios da Coca-cola por todo o lado. O vermelho da marca funde-se com o vermelho da terra e até patrocina os vestígios da Dinastia Ming expostos a partir do subsolo e visíveis através de um um vidro transparente embutido no passeio.

Corredores de mercados com todos os modelos possíveis e imaginários de praticamente…tudo. Tradicional ou não, verdadeiro ou falsificado, piroso ou muito piroso. Ou até não. Sem dar por isso, num corropio de tentações, chega-se à beira rio.

São simultâneas as sensações de fascínio e paradoxo. Assim, se traça o caminho até outra zona da cidade: Shamian Island. Com jardins e edifícios ao estilo europeu colonial, ex-dormitório de famílias de mercadores franceses e ingleses por alturas do século IX. Um bom local para passear, comer algo no célebre Lucy’s (com pratos locais e ocidentais) e assistir a um concerto ao ar livre como este:

Altamente recomendada também é a massagem chinesa no centro Yatt Parlor. Uma hora de massagem corporal, que pode custar alguns gritinhos para dentro mas são, seguramente, 6 EUR muito bem gastos.

Como aqueles, menos, gastos na visita à Chen Clan Academy. Obrigatório, o edifício é já de si obra de arte e está recheado das mais diversas manifestações artísticas tradicionais chinesas, desde a escultura em marfim e massa de pão, à porcelana e pintura.

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Mais à frente, o Templo de Guanxiao que, apesar do bizarríssimo freakshow de pedintes que o cerca, é imperdível. Não apenas pela beleza arquitectónica, mas pela oportunidade de assistir aos rituais budistas in loco.

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O problema da comunicação (muito difícil encontrar alguém que fale o inglês mais básico) e o choque cultural (nomeadamente no que toca à questão do asseio) serão os aspectos mais fortes a obrigar a uma maior tolerância para quem chega de fora. E a gastronomia. Não que não seja boa, mas porque é impossível entender o que vem na lista e, ao calhas, o mais provável é a coisa às vezes não correr muito bem.

Mas à parte de um ou outro prato demasiado sui generis, a cozinha chinesa é boa e recomenda-se. Como os jardins, outro dos ex-libris de Cantão. O belíssimo Orchid Garden é um deles.

Com a beleza própria dos jardins tipicamente chineses, é um local onde, no meio do caos, é possível encontrar a serenidade e o refúgio a qualquer hora do dia.

Especialmente saboroso antes de partir para a viagem de regresso a casa, a um Domingo à tarde, e com uma nova semana de trabalho pela frente.

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

2 comments

  1. dia

    muito belo seu passeio

  2. samanta

    belos jardins,passeios,muito bem elaborados parabéns

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