Cartas da ex-Macau

“Parece inverosímil hoje, mas a península de Macau encontrava-se orlada de praias, umas dignas do nome, outras minúsculas. Havia a formosíssima Praia de Cacilhas, no sopé do Ramal dos Mouros, a Praia da Chácara de Leitão, na base da Colina da Guia mais à mão e de fácil acesso, toda ela arborizada, a da Boca do Inferno, um pequeno areal de ressaca repougante e perigosa, na encosta de S. Francisco.

Passada a Praia Grande, já para os lados da mole da Penha, surgia a Praia do Bom Parto, a seguir a Praia do Bispo ou dos Ingleses, onde nadavam os ingleses do Hotel Bela Vista, outro hotel de serviço europeu, e a Praia do Tanque dos Mainatos, onde os mainatos (lavadeiros) iam lavar a roupa, num tanque mais acima, de água cristalina. Ambas as praias ficavam na baía chamada de Bom Pastor ou de S. Pedro, entre a curva do Bom Parto e a restinga de Santa Sancha. Existia ainda, na zona da Areia Preta, a graciosa Praia da Boa Vista, um longo areal que ia até ao istmo das Portas do Cerco. Ali, a gente abastada ostentava as suas casas de campo conhecidas por Hortas, com jardins e pomar.

(…) Ia-se pouco à Taipa e desbaratava-se assim a bela Praia da Esperança. Para Coloane, só os corajosos e os aficcionados da pesca se aventuravam, àquela terra de exílio, “cu de Judas” e covil de piratas, escondidos nos fojos da montanha. Falava-se de duas praias maravilhosas ali existentes, de água verde e espuma muito branca, mas eram raros aqueles que as conheciam de verdade (…)

Todas estas praias desapareceram há mais de setenta anos com os aterros para o alargamento da cidade e construção do Porto Exterior”

no livro Mong-Há, de Henrique de Senna Fernandes

Apenas um dos citáveis excertos do delicioso livro de Senna Fernandes, um dos mais ilustres escritores da terra. Leitura mais do que recomendada, especialmente a quem dá os primeiros passos neste sítio das mil mutações. Através de “estórias em que se misturam recordações, experiências vividas e páginas de pura ficção” não só nos divertimos com as aventuras do escritor – sobretudo as da meninice gozada pelos recantos do território -, como viajamos pelos meandros bem detalhados de cada esquina e cada “lojeca”, chinesa ou portuguesa, da ex-colónia lusa e os acontecimentos histórico-sociais que a marcaram, para o bem e para o mal.

Nascido no seio de uma das mais antigas e ilustres famílias macaenses, consta que Senna Fernandes gosta de dizer que “Se Portugal é a minha pátria, Macau é a minha mátria”  e que é na escrita dele que a Cidade do Nome de Deus dos anos 30, 40 e 50 encontra um dos mais legítimos testemunhos.

*Imagem ‘raptada’ do blogue Macau Antigo

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

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