“O lugar mais livre da China”

8 DE NOVEMBRO DE 2010
“O lugar mais livre da China”
Mark O’Neill tem noção do carácter único da universidade onde ensina jornalismo. E os seus 45 alunos da United International College, em Zhuhai, também. Na última aula, mostrou-se como é importante ter a liberdade como disciplina obrigatória.

Filipa Queiroz

“Acham que na China matam jornalistas?”, atira Michael Burke à plateia de estudantes de Jornalismo Internacional da United International College (UIC), em Zhuhai. Depois de uns segundos de silêncio, Micky Mai, 20 anos, responde: “Não sabemos”. “Então, essa é a questão. Não se sabe porque ninguém conta. E quem acham que controla as notícias?”, insiste o repórter. Mai responde que “é o Governo”. Burke de novo: “E quem é o Governo?”.

Podia ser uma conversa interessante mas banal, não fosse o caso de acontecer dentro de uma sala de aulas de uma universidade chinesa. Na United International College de Zhuhai a história é outra. “Construir um novo modelo de educação liberal na China Continental” é a missão do instituto fundado conjuntamente há cinco anos pela Universidade Normal de Pequim e a Universidade Baptista de Hong Kong (HKBU).

Michael Burke é documentarista e o convidado da semana passada para a aula de Teorias e Técnicas de Jornalismo do professor Mark O’Neill. Para o docente que trocou a Europa pela Ásia há 32 anos e hoje divide o tempo entre as salas de aulas e a actividade como jornalista em Hong Kong, “é uma honra poder ensinar na China”. O’Neill diz que na UIC o ensino é “menos formal” e o facto de as aulas serem dadas em inglês – e de o corpo docente ser oriundo de 20 países e regiões distintos – faz toda a diferença. Segundo o site oficial da universidade, numa mão cheia de anos o número de programas oferecidos aumentou de cinco para 13, o número de alunos de 200 para mais de dois mil e os funcionários e docentes já chegam às centenas.

Ao vivo e a cores

Mark O’Neill não precisou de muito tempo a leccionar para perceber que o dinamismo e o diálogo são essenciais para conseguir passar a mensagem. Daí ter começado a convidar colegas de profissão para partilharem as suas experiências com os alunos. Burke, colaborador da BBC entre outros meios de comunicação internacionais, vive e trabalha em Hong Kong há dois anos. Deslocou-se a Zhuhai para contar um pouco da sua história. Em particular aquela passada a trabalhar literalmente debaixo de fogo, como correspondente de guerra no Iraque, Afeganistão e Médio Oriente (ver entrevista nestas páginas).

“Então, alguém está a pensar ser jornalista de guerra?”, atira à turma. Um sonoro “sim” em uníssono apanha-o de surpresa. “Que resposta interessante. Mas agora a sério, alguém quer genuinamente ser correspondente de guerra?”, reitera. Ninguém responde. Acende-se o retroprojector. Entre os vídeos que Burke trouxe para mostrar à turma está “On Whose Orders?” (“Cumprindo ordens de quem?”), o documentário que, conta, denuncia actos de tortura praticados pelas tropas britânicas no Iraque em 2004. “A guerra não tem nada que ver com aquilo que vocês conhecem dos filmes. E há muita coisa que não passa cá para fora”, explica. Uma voz tímida, na fila da frente, diz: “Há imagens que são demasiado horríveis para as passarem na televisão”. E o orador devolve: “Mas não será melhor do que vê-las em Hollywood? Pelo menos são reais”. Na outra ponta da sala, O’Neill sorri de regozijo com o diálogo que se começa a montar.

“É muito interessante, nós nunca temos contacto com este tipo de jornalista. Apesar de ser um pouco confuso ao mesmo tempo”, confessa Helen Wu, 20 anos. A confusão deve-se em parte à distância física e cultural que a separa dos acontecimentos, mas também ao acesso limitado que tem à informação, como é o caso da Internet. “Ainda na semana passada lhes indiquei dois sites na Internet para visitarem mas eles não puderam aceder, tive de imprimir a informação para lhes dar”, conta o professor. E aproveita para acrescentar que considera “muito inteligente da parte da Universidade de Macau ter negociado o mesmo acesso à Internet que há na RAEM para o futuro campus na Ilha da Montanha”. Dois pontos a favor, se juntarmos o facto de que o campus também se irá reger pela jurisdição de Macau.

Mas apesar de algumas limitações persistirem, de acordo com alguns estudantes da UIC estudar ali é “uma vantagem”. “Tenho amigos a seguir Jornalismo noutras universidade da China continental e é muito diferente”, conta Helen Wu. “Nós temos aulas em inglês e jornais de Hong Kong na nossa biblioteca. E não é que queiramos ir contra o nosso Governo, só que queremos saber mais sobre o que se passa no mundo”, explica.

Entre quatro paredes

“Uma amiga de Xangai disse-me uma vez que o lugar mais livre da China é a sala de aula de uma universidade”, prossegue Mark O’Neill. Mesmo assim, o professor não deixa de ter em atenção o carácter delicado de determinadas temáticas em território onde a liberdade de expressão é limitada. “Normalmente tento ser cuidadoso a falar de Taiwan, Tibete, etc. Tento ser objectivo, limitar-me aos factos e não expressar a minha opinião. Afinal, é isso que devemos ensinar. E porque sei que, caso contrário, perderia o meu emprego.”

O’Neill também já sabe que uns assuntos despertam maior interesse do que outros. “Há uns dias estava a preparar uma aula sobre a Coreia do Norte e estava um pouco nervoso, mas afinal eles interessaram-se imenso e fizeram imensas perguntas. Na semana seguinte falei sobre o Médio Oriente e correu muito mal. Eles não compreendem.”

A falta de informação global não se limita a questões complexas. Quando estavam a ser projectadas imagens de uma celebridade numa campanha de apoio às crianças vítimas da guerra, Michael Burke notou que os alunos não estavam a perceber quem era. “Estão a ver na imagem, é o Paul McCartney. O Paul McCartney, dos Beatles. Conhecem os Beatles?”. Nada. E o mesmo com o programa “Big Brother”. “Foi muito estranho”, confessa Burke no final da sessão enquanto os estudantes apontam o seu endereço de email no caderno.

O futuro

Hong Kong e Macau parecem ser os destinos profissionais de eleição dos aspirantes a jornalistas da UIC. “Aqui impõem-nos mais regras” diz Wu, mas faz saber que a intenção é mais tarde voltar ao Continente. “Nós, a nova geração, temos a responsabilidade de mudar as coisas. Se não voltarmos nada vai mudar”, justifica. Sobre ir para a Europa, a colega de carteira, Micky Mai, diz que “seria uma desvantagem, porque a economia e o sistema político são demasiado diferentes. Os países têm mais do que um partido, é muito confuso”.

Jean Xu Tailiu, finalista, lembra outra questão importante: ”É muito perigoso ser jornalista na China. Os meus pais estão sempre preocupados. Durante o estágio que fiz no Verão passado em Pequim cheguei a ser seguida por uns tipos quando fui entrevistar um advogado que estava a defender um dissidente”, desabafa a jovem que também se queixa da falta de jornalismo de investigação no país.

Mas então, faz sentido ensinar Jornalismo Internacional na China? “É uma boa questão”, diz Mark O’Neil. “É verdade que, se estes miúdos forem trabalhar para o Shanghai Daily ou o Guanghzou Daily, nada do que aprendem aqui é útil. E é também pouco provável que algum vá ser jornalista de guerra um dia.” Mas ao docente conforta-o a ideia de que “talvez a situação agora não seja a ideal mas, em cinco anos ou 10, haverá muita mudança. E estes serão os protagonistas asiáticos dessa mudança”.

O Nobel desconhecido

Liu Xiaobo, o dissidente chinês galardoado com o Prémio Nobel da Paz este ano, também foi tema de conversa na aula de Teorias e Técnicas de Jornalismo de Mark O’Neill, na UIC. Mas de acordo com o docente, não houve discussão possível. “Eu gostaria muito, mas os meus alunos não sabem nada sobre Liu Xiaobo. Nós sabemos muito sobre ele, pudemos ler sobre o seu passado, tivemos acesso aos seus discursos, mas os meus alunos nunca tinham ouvido falar dele antes de receber o prémio”, explica. A falta de acesso à informação é mesmo a única coisa que os jovens estudantes de Jornalismo Internacional criticam em relação a Pequim, porque o patriotismo existe e não permite uma posição imparcial. O’Neill recorda que “um aluno disse que a China devia receber prémios Nobel mas não Liu Xiaobo, porque ele é contra o Governo”. O mesmo aconteceu com o tema do Tibete. “Tentámos discutir mas foi impossível, todos concordam com a posição oficial. A certa altura desisti.”

***

8 DE NOVEMBRO DE 2010
“O homem que nem a Rainha conseguiu calar”
Nem o Governo britânico, nem os norte-americanos. A viver em Hong Kong há um ano, o documentarista Michael Burke trabalhou para a BBC e outros canais. Esteve em Zhuhai para explicar como é difícil contar uma guerra e por que não quer voltar para casa.

Filipa Queiroz

Encontramos aquele que é provavelmente o documentarista de guerra mais cobiçado do Governo britânico à mesa do restaurante da United International College, em Zhuhai. Michael Burke, o orador da semana para a aula de Teorias e Técnicas de Jornalismo, é convidado a partilhar as experiências como correspondente no Iraque, Afeganistão e Médio Oriente com uma plateia que dificilmente conseguirá apontar com confiança a localização desses lugares no mapa.

Mas Burke não será apenas mais um repórter de guerra. E a culpa é de “On Whose Orders?” (“Cumprindo ordens de quem?”), o documentário de 90 minutos que o produtor e repórter de imagem fez em conjunto com o jornalista da BBC John Sweeney e que, conta, põe a nu actos cometidos por soldados britânicos no Iraque em 2003. Nomeadamente a prática de tortura sobre prisioneiros iraquianos usando técnicas proibidas pela Grã-Bretanha desde 1972.

Mas a história tem contornos rocambolescos. “Um dia abri a caixa do correio e tinha uma carta da Rainha a dizer para eu não abrir a boca sob risco de ser acusado de traição e ser preso”, conta, enquanto dá mais uma garfada no esparguete à bolonhesa. Isabel II teria contactado toda a equipa responsável pelo documentário que, decidida a mostrá-lo ao público, levou e venceu o caso na justiça com o apoio da BBC.

Quatro anos depois, em 2008, o filme era exibido no programa da mesma estação – “Panorama”. Ou pelo menos os 28 minutos que ‘restaram’ dele. E a opinião pública não ficou indiferente, nem o Governo. “Agora querem que volte para fornecer provas, ajudar nas investigações dos crimes de guerra”, prossegue. Mas o documentarista diz que tem motivos para estranhar tanta atenção. “Um amigo passou pelo mesmo processo e esteve desaparecido durante três meses; desde então está como um zombie. Não digo que serei torturado até à morte, mas tenho 700 horas de gravações, podem perfeitamente trancar-me num hotel por uns bons anos…”, ironiza o homem a quem a permanência no Iraque também custou o casamento e o convívio com os filhos.

A persistência da memória

Se perguntamos a Michael Burke se tem medo, ele responde peremptoriamente que não. “Medo tive lá [no Iraque]. Principalmente dos americanos.” E no seu discurso torna-se cada vez mais evidente que as experiências deixaram no repórter de imagem uma profunda desconfiança da política dos Estados Unidos.

“Lembro-me de uma vez estar a trabalhar com uma colega chinesa em Bagdade e de termos ido visitar a embaixada da República Popular da China (RPC). Estava completamente destruída e a ser usada como casa-de-banho pública. Descobri nessa altura que tinha sido a primeira a ser atingida. E na Sérvia a mesma coisa. Não sei o que se passa com os pilotos americanos mas assim que a guerra começa o primeiros rockets a serem lançados atingem sempre a embaixada chinesa. E a seguir dizem: ‘Foi um acidente!’.” E ainda hoje Burke guarda em casa uma bandeira ensanguentada da RPC e fotografias de Mao Zedong encontradas nos escombros.

É no rosto que Burke tem imprimida a pior lembrança. “Fui atingido no olho quando o meu repórter foi morto.” Chamava-se Richard Wild, tinha 24 anos, era freelancer. Riscos da profissão, dirão alguns, mas, garante o repórter, as condições mudaram radicalmente desde há uns anos – e para pior. De acordo com dados do Governo iraquiano publicados em Outubro passado, 269 jornalistas foram mortos desde 2003. Outros sofreram graves danos psíquicos. Além da falta de segurança – outro grande problema apontado incansavelmente pelo repórter – “nem todos os jornalistas estão interessados em mostrar os factos”.

“A maioria alinha literalmente com os americanos ou com os ingleses. Mas isso é como uma guerra de glamour, uma guerra de Hollywood. Alguém tinha de ser independente.” E Burke insiste que é preciso ter em conta todas as fontes, mesmo que elas sejam aquelas que premem o gatilho. Para “On Whose Orders?” o repórter conseguiu o testemunho de alguns dos soldados que terão torturado e assassinado ilegalmente prisioneiros iraquianos. Como é que os encontrou? “Facebook. Pertenciam todos ao mesmo grupo e não se coíbem de exibir fotografias dos crimes. Eles gostam de se gabar dessas coisas”, remata sarcástico.

E amanhã? “Gostaria de pensar que vou voltar [ao Iraque] e apertar a mão a algumas pessoas que conheço e dizer: ‘Fico contente que tudo tenha corrido bem’. Gostava que eles voltassem a ter uma vida. Eles não têm hospitais, não têm água, não têm comida, não têm segurança. Estão reduzidos à Idade da Pedra”, descreve. De acordo com a Associated Press, mais de 110 mil iraquianos foram mortos desde o início da guerra até Abril deste ano. “É mesmo preciso ir lá e ver. Mas há muitos obstáculos para conseguir passar a mensagem. Eu tive histórias recusadas por serem demasiado horríveis. Mas é isso que impede guerras: é as pessoas verem essas coisas.”

Convicto de que as tropas internacionais não deviam ficar no Iraque e Afeganistão, onde também trabalhou, Burke acredita que a situação só tende a piorar enquanto lá estiverem. O produtor continua a dar apoio a alguns amigos e colegas que estão nesses países, apesar de por agora não pensar envolver-se directamente. Está a trabalhar num documentário sobre a falecida multimilionária Nina Wang, viúva do magnata de Hong Kong Teddy Wang e conhecida como “a mulher mais rica da Ásia”, com uma fortuna avaliada em 4,2 mil milhões de dólares americanos. “É uma história que se está a revelar bem maior do que o esperado”, revela. Mas só mesmo esta pontinha do véu.

Mas então terá desistido da guerra? “Eu estou aqui porque não quero estar em Inglaterra e porque estou bastante feliz. Por isso talvez tenha desistido.” Não acreditamos. Por enquanto, além do novo documentário, o diplomado em Língua Inglesa e Literatura dá aulas e palestras sobre jornalismo em universidades e também está a trabalhar para Departamento de Educação do Governo de Hong Kong com uma série de DVD educativos.

 

 

 

 

 

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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

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