Canal Cheong-Jägerroos: “Na minha memória tudo é doce”

Já disseram que era poética e decorativa como Klimt, mas a simbiose de elementos ocidentais e orientais da pintura de Canal Cheong-Jägerroos dão-lhe o toque original. Isso e a paleta de cores que foi reunindo pelos vários países onde viveu desde que deixou Macau.

Texto Filipa Queiroz | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

Um sorriso aberto e meigo num rosto que não acusa a idade. A julgar pelo currículo pessoal e profissional, e folheando a fileira de artigos e críticas na imprensa internacional, a conversa com Canal Cheong Jägerroos adivinha-se longa e rica. A artista, como a qualquer novo desafio, estende as mãos e convida à conversa.

Há duas coisas que chamam a atenção em Canal à partida. O primeiro e o último nomes. Canal foi ela própria que se deu e simboliza criatividade. Jägerroos ganhou do marido, o finlandês Johan Jägerroos que conheceu há 26 anos em Cantão, na China. Ela era estudante de Belas Artes, 19 anos; ele aprendiz de chinês, 22. “Acho que o Johan foi o primeiro finlandês a estudar chinês na China naquela altura. O país ainda era muito fechado na época”, conta a pintora, ao mesmo tempo que gaba o talento do marido para os idiomas, e a superioridade embaraçante no domínio do mandarim.

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“Há uma história engraçada, que o meu marido adora contar aos amigos. Um dia eu estava a tentar comprar uma Coca Cola em mandarim, mas, depois de várias tentativas, a dona do café continuava sem me perceber. Foi então que pedi ajuda a ele, que quando falou com a senhora foi logo entendido. Fiquei tão envergonhada!”, conta, e atira uma gargalhada ao mesmo tempo que leva a mão esticada à boca.

Na altura, Canal já vivia em Xangai. Já tinha passado uma temporada em Hong Kong a estudar Design Gráfico e casou-se depois com o companheiro, que entretanto se fez empresário de uma multinacional finlandesa com centenas de delegações em vários países do mundo.

Primeiros esquissos

Papel de arroz, pincéis chineses, pigmento chinês, tinta-da-china. Esta é a base do trabalho de Canal Jägerroos e daquilo que, aos poucos, acrescentados elementos e técnicas da pintura ocidental, se viria a tornar a sua imagem de marca.

Canal nasceu em Macau e não foi por acaso que ganhou cedo o gosto pelo desenho. “Cresci numa família artística. O meu pai ensinou-nos a todos a pintar, a mim e aos meus irmãos. Eu adorava. Adorava a liberdade do papel branco, da tela branca. Fazia-me sentir livre”, conta. “Não digo que me fazia sentir como um deus, porque isso seria arrogante, mas sentia esse tipo de atracção, o prazer da sensação de poder criar o meu mundo.”

O pai da artista está actualmente reformado mas foi pintor,designer de mobiliário chinês e dono de uma empresa de exportação. “A técnica foi ele que me ensinou. Ensinou-me a mover o pincel, a usar a luz, a apoiar a mão, mas a minha maior influência foi a minha mãe”, confessa. “A minha mãe era muito apaixonada pela arte e eu sentia essa paixão, sentia a força da minha mãe, e essa força sempre foi um grande encorajamento na minha carreira.”

Uma carreira a pintar o amor, a paz, a bondade e a beleza com uma grande ligação à natureza. Pilares de todo o percurso criativo da artista que, depois de Xangai, continuou a desenhar-se numa série de novas paragens.

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Destino Ocidente

Estrasburgo. Por causa do emprego de Johan, Canal e o marido deixaram a China e mudaram-se para França. Uma mudança que a pintora viu como a “oportunidade” para se embrenhar numa sociedade e cultura distintas, logo fonte de novas inspirações. “Eram uma vida e um ambiente totalmente novos que me deram muita força, a mim e ao meu trabalho”, descreve a autora, apesar de admitir que não há rosas sem espinhos.

Canal admite que sentiu o choque cultural em França, sobretudo por causa da língua, mas logo a vida se encarregou de equilibrar as coisas. “Engravidei do meu primeiro filho, Filip”, diz. “Foi então que desviei a minha atenção dessas energias negativas para ele. Tinha as minhas exposições, a minha casa, o meu bebé. O meu mundo estava completo.”

Depois de Estrasburgo, Canal e a família mudaram-se para Zurique, na Suíça. Foi lá que nasceu a segunda filha do casal, Sabrina. Apesar do reboliço doméstico, a experiência em Zurique foi mais positiva e o processo criativo continuou a ferro e fogo. Canal conta que tinha um calendário apertado de exposições e, se durante o dia se ocupava dos filhos, a noite dedicava às telas. Chegava a passar semanas sem sair de casa. Não diria que foi fácil, mas como se sentia “cheia de amor”, também não guarda ressentimento. “Hoje, na minha memória, tudo é doce.”

 

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Dolce vita

Ao ritmo das viagens e mostras um pouco por todo o mundo, também o trabalho de Canal foi mudando e absorvendo um pouco de cada cultura e experiência. Dos quatro anos seguintes em Trieste, Itália, a pintora recorda uma boa vida, com os filhos mais crescidos e por isso mais tempo para a pintura, para além de rodeada de “pessoas maravilhosas”. Da língua ficou pouco. “Co…co…come stai?”, balbucia, e confessa logo a seguir: “Ao contrário do meu marido as línguas não me estão definitivamente nos genes.”

Ao longo de todo o percurso profissional Canal regozija-se de sempre ter tido a sorte de nunca ter precisado de se preocupar com dinheiro, e diz sentir-se grata e encorajada a continuar a “transmitir coisas boas às pessoas” através das obras que sempre encontraram quem as levasse para casa.

“Lembro-me de uma vez, numa inauguração… uma coleccionadora italiana, com os seus 70 anos, comprou dois dos meus quadros. Naturalmente, como estava presente, aproximei-me dela e agradeci. Ela virou-se para mim e disse: ‘Oh, adoro o seu trabalho!’”, conta. “A maneira como se exprimiu foi tão comovente, tão emocional, que até fiquei com medo que ela tivesse um ataque cardíaco!”

Canal Jägerroos gosta de se perder e de se encontrar através da arte. Garante que se dedica a cada quadro como se fosse o primeiro e quando está a criar fica quase que obcecada, diluída no próprio mundo colorido e abstracto, mesmo que tarde várias horas até pegar de facto nos pincéis.

Além das tintas, a colagem faz parte da obra da artista, cuja matéria-prima pode ser o pedaço de camisola ou cortina mais à mão, mas há elementos que continuam a não poder faltar: papel de arroz, pincéis chineses, pigmento chinês, tinta-da-china. A inspiração bebe-a da filosofia Laozi (老子), da arte tradicional chinesa e de artistas como Bada Shanren (八大山人) e Zhang Da Qian (张大千) .

 

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África

O périplo geográfico de Canal termina na Finlândia, onde actualmente reside, mas não sem antes mudar, mais uma vez, radicalmente de cenário. “Vivemos durante três anos em Dakar, no Senegal, e foi extremamente importante para o meu percurso criativo. Adorei.”

Tal como em França, Canal voltou a sentir novamente um choque, desta feita derivado da pobreza e falta de recursos aos quais não estava habituada. “Lembro-me de chegar a Dakar e o meu marido ter imensa vontade de me mostrar a cidade, que já conhecia. Ele estava muito entusiasmado com uma loja onde dizia que se podia comprar muitas coisas, mas pelo aspecto eu não me apercebia de nada de especial.” O que a pintora ignorava era o facto de a loja ser a única do género na cidade, cujo centro tomou pelos arrabaldes. “Eu fiquei tão chocada!”

Apesar de residir na zona residencial dos expatriados em Dakar, Canal diz que fazia questão de percorrer as ruas mais movimentadas da cidade pelo puro prazer da experiência, e foi dessa forma que, aos poucos, se foi apercebendo dos encantos do lugar. “O feitio relaxado e tranquilo das pessoas em contraste com o dos europeus. A bondade, a alegria. A beleza das mulheres”, diz. “Bon jour madame, commen ça va?”, imita. “Sempre tão bonitas, tão bem vestidas, e muito coloridas! Mesmo que fosse só para ir às compras ou fazer aqueles trabalhos bem duros.” Foi nessa altura que os quadros da pintura mudaram de tonalidade. “Mais claros, muito mais claros.”

 

Pura afeição

Mais de 20 anos volvidos, e visitas anuais discretas a Macau para visitar a família, Canal Cheong-Jägerroos bateu à porta da Fundação Rui Cunha com a proposta de uma primeira exposição individual na RAEM, e um leilão das obras cuja venda reverteriam para o “Project Hope”, que ajuda crianças no Interior da China.

Dois dias depois a exposição “Pura Afeição” ganhou corpo em Fevereiro e Março deste ano, e incluiu “Tempo.Espaço.Existência” , conjunto de seis pinturas que a artista levou à 55.ª edição da Bienal Internacional de Arte de Veneza, em 2013.

“Para mim foi um grande passo participar na Bienal e expor lado a lado a uma série de artistas importantes.” Entre esses artistas estavam Lawrence Weiner, norte-americano, considerado o “pai” da arte conceptual e representado pelo MoMa de Nova Iorque; e Yoko Ono, artista avant garde e viúva do ex-Beatle John Lennon.

Canal quis exibir e doar os quadros em Macau como forma de homenagear o povo e, em particular, a família. “É essa a razão principal pela qual estou aqui. Eles são a raiz do que sou hoje e crescer numa família artística, com total apoio, fez-me aprender muitas coisas; não só sobre arte como sobre como construir muita força dentro de mim mesma, para saber como seguir em frente e levar a cabo o meu sonho.”

Um regresso da Finlândia para Macau? “Quem sabe. Espero, sem dúvida, poder passar mais tempo aqui para cuidar dos meus pais ou mesmo trabalhar, estudar todos estes novos elementos que Macau está a desenvolver e expressá-lo no meu trabalho”, admite. “Tudo é bonito, em tudo há beleza, só é preciso, às vezes, mudar o ponto de vista.”

Publicado em 2014-06-05 na Revista Macau 


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About Filipa Queiroz

Jornalista. Nascida em Coimbra, criada em Braga e a viver em Macau.

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