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Cultura | “Estamos a viver um bom momento do teatro lusófono”

Dezembro, 2014

Durante três dias falou-se português com sotaque do Brasil, Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau no palco do auditório do Instituto Politécnico de Macau na I Mostra de Teatro dos Países de Língua Portuguesa.

Teatro Brasil

Texto Filipa Queiroz | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro e Jorge de Palma

“Soltar as amarras! Vamos partiiiir!” O actor repete as mesmas palavras aos gritos, com vozes diferentes, os braços erguidos para o alto e as pernas agitadas para trás e para a frente, para trás e para a frente. Johan Padan, o veneziano malandro e fanfarrão, embarca em Sevilha numa caravela de Cristóvão Colombo rumo às Américas. Estamos em 1492. Depois de dias e dias a navegar, os espanhóis chegam finalmente a uma ilha “tão florida tão florida que mais tarde veio a chamar-se… Florida”.

Durante uma hora e 20 minutos de monólogo com muito humor ouvimos a narração das aventuras do “Italiano”, a criação do dramaturgo Dario Fo recriada pelo actor e encenador brasileiro Julio Adrião. Um espectáculo com tanto sucesso que está há nove anos na estrada. Mais de 500 apresentações em todo o mundo, sobretudo no Brasil.

“É um espectáculo que vai aos pouquinhos, vai chegando e as pessoas vão se envolvendo, acredito que graças ao facto de ser uma história muito próxima das pessoas que são fruto desse grande período de colonização por parte de vários países da Europa e não só”, explica Adrião à porta do auditório do Instituto Politécnico de Macau (IPM).

A Descoberta das Américas abriu a novidade da edição deste ano da Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, organizada pelo Secretariado Permanente do Fórum Macau – o Teatrau, I Mostra de Teatro dos Países de Língua Portuguesa, coordenada pelo Instituto Português do Oriente (IPOR). “Pareceu-nos que o teatro em língua portuguesa era uma área que precisava de algum impulso”, comenta João Laurentino Neves, director do IPOR. “O teatro é talvez nas artes performativas aquele em que a língua desempenha o papel mais importante do ponto de vista de trazer até nós o que é uma representação cultural, e o que temos em palco são leituras que companhias fazem daquilo que é a sua cultura, a sua identidade.”

Julio Adrião considera que a peça do Nobel da Literatura de 1997 permite ao público reflectir sobre factos que, não sendo engraçados, são transmitidos numa chave de uma certa pureza e ingenuidade. Por isso, “proporciona uma reflexão sobre o que aconteceu, mas também sobre as coisas que ainda hoje acontecem como diferenças, imposições e violência, todas presentes no quotidiano da civilização. Esta é uma oportunidade para pensar sobre elas”.

Teatro Brasil

Sintadu

Reflexão é a palavra chave do trabalho do Grupo de Teatro do Oprimido (GTO) da Guiné-Bissau, que também usa factos reais para passar ao público uma mensagem e receber uma resposta. Sintadufoi a peça que apresentaram em Macau. Duas mulheres de duas gerações diferentes trabalham a terra quando um jovem, neto de uma delas, decide usurpar o terreno e destruir as colheitas para construir por cima. Na Guiné, sintadu significa harmonia e uma boa relação de vizinhança. A peça trata o conflito da posse de terras, problema que estraga precisamente o sintadu e que actualmente é um problema que, segundo José Carlos Correia, está a crescer no país africano.

No final da apresentação, o actor e encenador pergunta ao público se tem alguma proposta de solução para o problema daquelas duas mulheres, e o público acede. Uma espectadora sobe ao palco e substitui uma das personagens fazendo um discurso diferente, completamente improvisado. Depois dela outros sobem ao palco, inclusive uma criança que se ajoelha no chão a pedir clemência.

“Fiquei impressionada! A criança conseguiu fazer o opressor mudar de ideias”, confessa a actriz Edilta da Silva. Ela e Elsa Gomes fazem parte do GTO desde a fundação, há dez anos. Antes faziam parte de um grupo de teatro convencional. “Todas as formas de teatro sensibilizam, mas esta em particular é uma metodologia e uma forma mais fácil de criticar as coisas que não estão bem”, explicam.

Teatro Guiné

O Teatro do Oprimido foi fundado nos anos 1960 pelo dramaturgo brasileiro Augusto Boal e alia a arte à acção social. As técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo e são hoje largamente empregadas, não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política, mas também nas áreas de educação, saúde mental e sistema prisional. “Todos os seres humanos são actores porque actuam, e espectadores porque observam”, disse Boal.

O GTO da Guiné inclui um programa de reinserção de vítimas de guerra e aborda temas que vão desde o casamento precoce, escolarização da rapariga e excisão feminina até à corrupção, sempre com recurso a elementos cénicos que identificam a origem. “É útil porque levamos a peça à comunidade para trabalhar com eles uma solução para os problemas”, conta José Carlos. “Nas muitas regiões onde fomos houve uma resposta positiva. As pessoas têm a coragem de dizer: ‘É isto que temos de fazer!’ Sabemos que o conflito não é fácil nem rápido de resolver, mas aos poucos vai havendo uma mudança de mentalidade e por isso trouxemos esta peça a Macau, para mostrar um outro mundo.”

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Adão e Eva

Apesar de não ser a versão bíblica que todos conhecemos, porque o texto é do escritor e músico Mário Lúcio Sousa, e apesar de usar uma conjugação de linguagens, como o teatro e a dança contemporânea, há detalhes ao nível da expressão corporal e do ambiente sonoro e visual da peça de Cabo Verde que são marcadamente representativos do país. A cestaria, a música, o balanço do corpo, por exemplo.

João Paulo Brito e Raquel Monteiro são Adão e Eva dos Sikinada, uma companhia com cinco anos que aposta no experimentalismo, sem uma linha estética definida mas com vontade de inovar, e cuja criatividade tem sido alimentada, entre outras coisas, pelos encontros no espaço da lusofonia. “Apesar das crises, o intercâmbio entre companhias lusófonas tem sido muito grande. Há vários festivais no Brasil, em Portugal e em Cabo Verde – como o Mindelact, que já é um festival de referência –, por isso algumas das pessoas que encontrei aqui em Macau já conhecia. Vamo-nos cruzando pelo mundo”, explica João Paulo.

O também director nacional das Artes de Cabo Verde diz que os frutos estão à vista em forma de diálogos que resultam em co-produções, que por sua vez representam uma troca de experiências enriquecedora e revitalizante para os artistas. “O nosso teatro vai enriquecendo, vai saindo e ganhando uma dimensão para além do nosso espaço. Fazíamos teatro há uns anos muito direccionado para Cabo Verde, mesmo ao nível da linguagem.”

Geralmente a companhia opta por representar em língua portuguesa. “Há espectáculos que pela sua natureza não se traduzem, mas mesmo fazendo em português é um português cuja construção frásica é diferente do português que se fala em Portugal, completamente perceptível, mas onde se percebe que há um jogo de palavras diferente. Acho que é uma riqueza termos essa possibilidade de, dentro da mesma língua, dizermos: ‘Ah, isso é teatro falado em português mas é angolano ou é da Guiné’”, conclui.

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Órfã do Rei

O público deste primeiro Teatrau foi escasso. Mel Gamboa, que apresentou Órfã do Rei, da companhia HenriqueArtes de Luanda, diz que foi o “único ponto negativo”, mas garante que quem foi, gostou. “Foram poucos mas foi muito bom. Disseram-nos que se sentiram surpreendidos, que gostaram muito e que ficaram com vontade de ver mais”, conta a actriz que interpretou um monólogo do escritor angolano José Mena Abrantes sobre a partida para Angola de uma órfã criada num asilo real, no final do século XVI.

Segundo Mel Gamboa, em Angola o panorama é similar, agravado pela falta de salas e o preço elevado dos bilhetes. Pela experiência nas oficinas que os grupos também fizeram em instituições de ensino de Macau, a actriz arrisca que mais do que divulgação, Macau precisa de formar público teatral.

O GTO da Guiné-Bissau desdramatiza. “Para nós é muito normal fazer teatro até para uma pessoa. É muito bom ter a sala cheia mas não importa, mesmo menos cheia nós vamos trabalhar”, diz Edilta Silva.

No Brasil o teatro é prolífico. Julio Adrião explica que no interior do país a arte performativa é uma forma de comunicação muito forte, além de uma ferramenta de educação e de troca a outros níveis que não só o do entretenimento. Mas cada vez que faz um espectáculo, o actor pensa sempre que há alguém que está ali pela primeira vez e que para voltar uma segunda depende do trabalho que ele fizer. “Acho que embora o teatro não seja um alimento necessário para o corpo, ele acaba por ser um elemento muito importante para a alma. É um lugar onde você se renova, onde você pensa sobre coisas muito próprias. Por isso, tem uma função e vai continuar a ter.”

Num contexto global, em que as atenções estão voltadas para as novas tecnologias, o cinema e a televisão, Adrião considera que o teatro está a salvo, precisamente devido ao seu carácter único. “O teatro só acontece naquele momento em que ele acontece. Cada espectáculo que faço é como se tivesse uma memória própria. Aqui em Macau, por exemplo, é ainda mais especial – realmente inesquecível.”

João Paulo não tem dúvidas: “Estamos a viver um bom momento do teatro lusófono.” E João Laurentino Neves espera para o ano poder repetir a dose. “O facto de podermos ter teatro com leituras completamente diferentes é uma oportunidade excelente para aprofundarmos aquilo que temos vindo a dizer que Macau pode ser, que é essa plataforma de encontros, de diálogos, dessas competências interculturais que queremos desenvolver para todos dentro da mesma língua, reconhecendo as nossas diferenças e sobretudo valorizando-as.”

A manter-se o evento, segundo o director do IPOR, para o ano haverá uma II Mostra de Teatro dos Países de Língua Portuguesa e com uma peça original de Macau.

Filipa Queiroz
Publicado na revista MACAU

Por outras palavras

A tradução literária em Macau está a dá largos passos. Lili Han terminou a tradução de um conto de Eça de Queiroz para o chinês e, numa altura em que o número de chineses a aprender português aumenta de ano para ano, Márcia Schmaltz ajuda a trazer para a língua de Camões o Nobel da Literatura Mo Yan

Tradução

Texto Filipa Queiroz | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

É conhecida a especificidade da escrita de Eça de Queiroz, da expressividade e recursividade da escrita à reprodução do linguajar da burguesia lisboeta que o escritor transportou para quase todas obras, desde Os Maias a O Primo Basílio. Ainda a forma como tirava partido do vocabulário habitual e o tornava apto para exprimir conteúdos ideológicos e estéticos inovadores e visionários, e o uso expressivo do adjectivo que é talvez o processo estilístico que mais destaca Eça no panorama da produção literária portuguesa.

Tudo isso torna o escritor português interessante tanto quanto importante de ler, mas imagine como será traduzir. Agora imagine traduzir para o chinês. Foi o que foi pedido a Lili Han pelo Instituto Cultural de Macau, que lhe propôs que traduzisse o conto Chineses e Japoneses. Um sinal da adesão ao Orientalismo de Eça, a par de outros títulos como O Mandarim e o artigo A França e o Sião, e apesar de Eça nunca ter visitado este lado do globo.

O texto é uma perspectiva da guerra entre o Japão e a China pelo domínio do “Reino da Serenidade Matutina”, ou seja, a Coreia. Uma análise profundamente crítica e assertiva sobre a visão que os chineses teriam dos europeus e os europeus dos chineses, com o cunho visionário a que de resto o autor de Os Maias habituou os leitores.

Lili Han já terminou a tradução da crónica mas a publicação só deve acontecer durante o próximo ano, por isso prefere não avançar muitos detalhes. No entanto, a professora de tradução do Instituto Politécnico de Macau (IPM) explicou na sessão sobre tradução do encontro Literary Word, no Centro de Indústrias Criativas – Creative Macau, em Abril, as horas incontáveis que passou a ler e estudar Eça de Queirós, e a tentar compreender o contexto de Portugal e internacional do início do século XIX.

“Para mim, traduzir Eça de Queiroz foi uma experiência muito especial, no sentido de encontrar soluções no processo de tradução. Antes de fazer tradução, fui estudar o autor, a sua vida, o seu trabalho e os comentários sobre a sua escrita. Li igualmente algumas obras dele já traduzidas para chinês no intuito de conhecer de modo geral o seu estilo, as técnicas de escrita e a corrente literária que ele representa na literatura portuguesa”, explica Lili Han.

Eça de Queiroz é o autor português mais traduzido na China, há já seis livros publicados em chinês (O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, A Relíquia, A Capital e A Cidade e As Serras). A Capital foi o último a sair em 2000, traduzido por Chen Yongyi, considerado um dos melhores tradutores chineses de português, condecorado pelo então presidente da República Portuguesa Mário Soares em 1995.

“Para mim Eça é como outros grandes escritores, representa o século. É uma figura importantíssima na literatura portuguesa e acho que vale a pena apresentá-lo aos leitores chineses”, diz Lili Han.

A história da apresentação e tradução de obras literárias portuguesas na China não é longa. As novelas de Eça começaram a ser publicadas em revistas chinesas nos anos 1960 mas traduzidas de outras línguas estrangeiras para o chinês, e não directamente de português. Isso só começou a acontecer a partir dos anos 1980 graças ao desenvolvimento do contingente de tradutores chineses.

“A minha maior dificuldade na tradução foi na interpretação do humor e ironias de Eça, porque as suas ironias faziam parte dele e a sua linguagem era demasiado conotativa, o que fez com que a tradução tivesse de ser semântica e comunicativamente equivalente”, explica Lili Han. Mas confessa: “Este desafio depois tornou-se um prazer.” A preparação exaustiva ajudou-a a resolver os problemas básicos de tradução como, por exemplo, o registo e a metáfora. “Ao longo da tradução continuou o mesmo esforço, muitas vezes para melhor saber as alusões literárias.”

O reverso da medalha

Quando Mo Yan ganhou o Nobel da Literatura no ano passado montou-se um problema para os leitores lusófonos – a existência de apenas uma obra disponível do autor em língua portuguesa –Peitos Grandes, Ancas Largas (Ulisseia). Entretanto surgiu mais uma: Mudança, publicada em Junho de 2013, no Brasil. Quem traduziu foi Márcia Schmaltz, professora de Tradução na Universidade de Macau (UMAC) desde 2008, onde também faz o doutoramento. Mudança é uma novela pseudobiográfica em que o personagem Mo Yan relata as transformações psíquicas e comportamentais durante o percurso de crescimento de um grupo de amigos de escola durante a Revolução Cultural até a Reforma e Abertura em 1978”, explica.

Márcia também traduziu De Pernas Para o Ar, conto que narra o reencontro de um grupo de amigos de infância numa recepção promovida por um deles, que foi promovido a um cargo de alto-escalão do governo provincial. “Um conto em que as relações de poder são escancaradas e os personagens se submetem cinicamente para tirar algum proveito”, conta a tradutora. Em comum as narrativas têm o estado de relações corrompidas pelos interesses pessoais, tratados numa linguagem bem humorada.

No currículo da tradutora constam uma série de obras, passou do chinês para o português Histórias da Mitologia Chinesa (distinguido com o prémio Xerox/Livro Aberto em 2000), Contos Completosde Lu Xun, Viver de Yu Hua, Chengdu, Deixe-me em Paz de Murong Xuechun, Dicionários Temáticos e Visuais Bilingues, entre outras. Especializada em tradução pela Universidade de Língua e Cultura de Pequim, foi na capital que leu pela primeira vez o autor chinês Guan Moye, conhecido pelo pseudónimo Mo Yan, muito antes do Nobel.

“Na altura [2005-2006] foi-nos apresentada a grande promessa literária e sua obra Extenuado de Viver e Morrer. Devorei o livro em poucos dias e logo escrevi uma resenha propondo a sua tradução a uma editora brasileira. A previsão de páginas arrefeceu a sua publicação, mas penso que ainda deverá ser traduzida”, conta a tradutora que continua a explorar o universo do escritor chinês. De momento na cabeceira tem Nação do Destilado em que, segundo a académica, o autor mistura diferentes estilos e vozes de narrativa que é “uma delícia de se ler”. “O seu estilo de realismo-mágico ao sabor chinês é uma crítica ácida à distorção moral em que o país do Meio está mergulhado.”

As traduções de Mo Yan foram propostas a Márcia Schmaltz logo após a láurea do Nobel de Literatura pela editora Cosac Naify (Brasil) e o Instituto Cultural de Macau (IC).

O processo

Para Lili Han o maior desafio não é apenas o trabalho de tradução mas também o de identificação do tradutor com autor e obra. “Sabemos que a escrita de uma pessoa revela as próprias características, e traduzir um texto e  fazer investigação ajudam a aproximarmo-nos à mentalidade do autor, e apenas daí vem a reprodução da mesma mentalidade e sabor”, explica Lili Han. “É de referir que nenhuma reprodução podia ser igual ao original, porque esta reprodução é também nova criação de tradutor. Comparo um tradutor/uma tradutora à Cinderela com os sapatos de cristal, sendo as suas ‘pegadas’ reveladoras da transformação. Todo o meu trabalho preparativo foi para procurar ‘os sapatos de cristal’ para poder entrar no palácio textual de Eça.”

A fidelidade é uma questão antiga no meio literário e das discussões filosóficas dos Estudos da Tradução. “No último período, muitas vezes diz-se como uma tradução estrangeirizante ou domesticante. Sou da opinião que o tradutor como mediador entre duas culturas tem que encontrar a exacta medida para transpor o estilo e o conteúdo de uma língua a outra”, defende Márcia Schmaltz. “Esta tarefa não é fácil, exige do tradutor a experiência tanto na leitura como na escrita das línguas envolvidas.”

Para a académica, que nasceu em Porto Alegre (Brasil) e viveu seis anos em Taiwan, o tradutor tem necessariamente de ser um ser intercultural, que ao traduzir tem que ponderar o género do texto, a intenção do autor e o perfil dos leitores como a idade, situação económica e contexto político.

Poesia a quatro mãos

Stella Lee, que se dedica à pesquisa literária e linguística na Biblioteca Central de Macau, ajudou Fernanda Dias a traduzir Gao Ge: Poemas (Instituto Português do Oriente, 2007) e Poemas de Uma Monografia de Macau (COD, 2008) do chinês para o português. “Eu sei falar chinês e português, e há macaenses que também sabem falar as duas línguas, mas para passar uma obra do chinês para o português numa língua poética, numa linguagem literária, eu acho que não é fácil. Por causa disso, sempre que colaboro com a Fernanda só faço a parte da tradução literal, oral. Explicar bem como é o sentimento do texto em chinês, e depois a Fernanda Dias passa esta imagem para a escrita na sua própria língua, que é o português.”

Poemas de Uma Monografia de Macau (em chinês “Aomen Jilue”) é um relatório sobre Macau escrito por dois delegados do Imperador, Yin Guan-ren e Zhang Yulin, que data de 1751. Inclui poemas que são ao mesmo tempo testemunho dos relatos e embelezamento do texto, como descrições de viagens e embaixadas dos oficiais enviados aos países asiáticos com os quais a China mantinha relações na época, encontros e trocas culturais, paisagens, costumes, descrições minuciosas da natureza ou dos mitos. Stella diz que a sensibilidade e os conhecimentos da cultura chinesa de Fernanda Dias foram essenciais.

“Por exemplo, na versão chinesa dizia que se tratava de uma planta de cor vermelha, mas o objectivo era exprimir a paixão sobre qualquer coisa. Fernanda Dias utilizou a expressão rubro. Rubro é a mesma cor, mas basta dizer que aquela planta é rubra para sentirmos o significado, sai a imagem. Se traduzíssemos só como vermelho já não havia este forte sentido lá dentro”, explica Lee, que além do português e chinês domina o francês, inglês, e estuda alemão, japonês e russo.

A diferença

Existem muitos pontos linguisticamente diferentes entre a língua portuguesa e a língua chinesa, como explica Lili Han. “O português é uma língua discursiva, e o chinês não. É uma língua que sem os verbos, sem reflexões, para dar o tempo passado, para integrar o sujeito, é preciso acrescentar na altura de traduzir”, diz. Para ela uma das principais diferenças é a estrutura das duas línguas, porque o português é sujeito-proeminente, enquanto o chinês é tópico-proeminente. “Vejo o português como uma árvore, que além da oração principal ainda tem gerúndios, orações subordinadas e qualificadores de vários níveis. A tradução para chinês tem que fazer uma ‘poda’ sem deixar de cuidar dos elementos eliminados. Isto significa que a tradução em si própria é uma recriação.”

Márcia Schmaltz diz que o que lhe chama sempre mais a atenção, e onde gasta mais energias, são os jogos de palavras em relação aos nomes ou apelidos chineses dos personagens. “Um dos dois competidores à mesa do jogo tinha sido meu professor de matemática, Liu Tianguang, de estatura baixa e com uma boca incrivelmente grande. Dizem que conseguia enfiar todo o punho dentro da boca, mas nunca apresentou esse número para nós. Volta e meia surge como um lampejo no meu pensamento, o professor Liu bocejando na nossa frente: a capacidade de abertura daquela boca era realmente uma cena impressionante. Tinham lhe apelidado de ‘hipopótamo’, mas como nenhum de nós sabia de que tipo de animal se tratava, ao invés de ser chamado de ‘hipopótamo Liu’ referíamo-nos a ele, às escondidas, como ‘sapo Liu’, pois tanto o hipopótamo quanto o sapo têm uma bocarra generosa, e as pronúncias dos dois nomes são parecidas em chinês” (in Mudança).

Márcia destaca a importância da contextualização do leitor, porque há muita cultura compartilhada, e nessa altura o papel do tradutor também passa por saber inserir informação sem interferir no texto. Pode utilizar vários recursos como uma pequena nota de rodapé, um pequeno esclarecimento diluído no meio do texto. “Isto é bastante desafiante porque nós não podemos interferir no texto e saber onde é que tem de entrar, até onde pode entrar o tradutor.”

O que falta e o que vem

Lili Han já traduziu alguns poetas portugueses de português para inglês, com a ajuda do professor Christopher Kelen. Poetas portugueses que escreviam em Macau e sobre Macau como Alberto Eduardo Estima de Oliveira, António Correia, Camilo Pessanha, Carlos Marreiros, Carlos Morais José, Eugénio de Andrade, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Jorge Arrimar, sendo que os poemas traduzidos estão agora incluídos na Antologia de Poetas Portugueses de Macau (2010).

Porque decidiu dedicar-se ao português? “É complicado explicar o motivo. Tinha estudado o inglês na Universidade de Pequim durante os primeiros dois anos universitários, no terceiro ano fui escolhida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para estudar o português na UMAC e a partir deste ponto de viragem o português tornou-se uma língua indispensável na minha vida”, confessa, e não hesita em responder quando lhe perguntamos que autor(es) faz falta traduzir do português para o chinês: Sofia Mello Andresen e Fiama Pais Brandão.

Márcia Schmaltz gostava de traduzir um romance de Mo Yan, mas admite que é complicado, porque os romances chineses são robustos e a nova tendência do mercado editorial é de romances rápidos, que não ultrapassem as 300 e 400 páginas. Da safra de autores contemporâneos, considera que faz falta passar para o português autores como Wang Shuo e Bi Feiyu. “São autores que despontam no cenário da literatura chinesa, somado a autores da velha guarda como Jia Ping’ao, Shen Zhongwen, Sun Li e Wang Cengqi. O lirismo da escritora taiwanesa San Mao, falecida em 1991, também teria uma óptima recepção pelos leitores de língua portuguesa”, diz. E Macau reúne as condições ideais para fazer este trabalho. “No último período iniciativas estão sendo tomadas para potencializar essa vocação como Festival Literário de Macau – Rota das Letras.”

A autora lembra que o Mestrado de Estudos da Tradução da Universidade de Macau (UMAC) lançou recentemente a colecção Tradução de Clássicos da Literatura Brasileira; que um grupo de alunos traduziu para o chinês O Homem que Sabia Javanês de Lima Barreto (1881-1922); e que será ainda lançado este ano Laranja da China de António Alcântara Machado (1901-1935). Até ao final do ano saem ainda Macário de Álvares de Azevedo (1831-1852) e Dentro da Noite de João do Rio (1881-1921).

A título pessoal, Schmaltz publicou em Julho Deixe-me em Paz (Geração), de Murong Xuecun, e planeia lançar Contos Taoistas, em parceria com o escritor Sérgio Capparelli. “Contudo, mais iniciativas de fomento [à tradução] são necessárias”, nota. A tradução do clássico da literatura chinesa Sonho do Pavilhão Vermelho, de Cao Xueqin, é “o projecto de vida” da tradutora.

A título de curiosidade, fica uma última nota. Mo Yan foi um dos poucos laureados até hoje a fazer um agradecimento aos seus tradutores no discurso da cerimónia de entrega do Prémio Nobel, em Dezembro de 2012. O escritor terá dito: “Muitas vezes eu penso que a atividade de tradução é mais árdua do que a escrita do original. Dispendi apenas 43 dias para escrever Cansado de Viver e Morrer, enquanto a sinóloga Sueca Chen Anna levou seis anos para traduzir o livro. Ontem à noite, quando um amigo pediu para eu autografar o livro traduzido pela Chen Anna, hesitei por um tempo, pensava se deveria ou não autografar. Finalmente autografei o livro, mas deixei um espaço em branco reservado para a tradutora assinar também. Por isso, eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos os tradutores e sinólogos do mundo que traduziram a minha obra, e manifestar o meu reconhecimento por, através de sua actividade, divulgarem a literatura chinesa para outros países” (in Nuobei’er wenxuejiang zhi lü – A grande cerimónia: uma viagem da premiação do prémio Nobel de Literatura, Taipei: Tianxia Wenhua, 2013, p. 67-68).

Filipa Queiroz
Publicado na revista MACAU

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